quarta-feira, 4 de março de 2026

 

A escada e o muro

A condição da mulher tem sido marcada por escadas longas e muros erguidos, mas cada passo, cada olhar em direção ao céu, são um gesto de resistência.

A liberdade não chega de repente: constrói-se, degrau a degrau, até que, um dia, o muro deixa de ser barreira e começa a ser o início do voo.

Subiu a escada devagar, degrau após degrau, como tantas mulheres ao longo da História. A escada era estreita e gasta, marcada por gerações de pés cansados, e construída com séculos de proibições, de portas fechadas e de silêncios impostos. Cada degrau carregava a memória das mulheres que, antes dela, haviam tentado subir.

Durante muito tempo, haviam-lhe dito, como a tantas outras antes dela, que não precisava de subir. “A vida das mulheres é cá em baixo, entre paredes, ao abrigo do mundo.” Se insistia em olhar para o alto, vinha a advertência: “Não te compete aprender, nem decidir, nem escolher. A tua função é servir, calar e esperar.”

As mulheres que a precederam tinham tentado. Muitas ficaram pelo caminho, travadas por leis que as impediram de votar, de estudar, de possuir bens, de escolher com quem viver. Outras foram condenadas ao silêncio, acusadas de ousadia quando apenas queriam voz. Cada uma delas deixou um traço invisível na madeira da escada: uma racha, um desgaste, um nó endurecido.

Ao subir, sentia o peso dessas histórias sobre os ombros. Cada degrau era um esforço

duplo: não só por si, mas por todas aquelas que nunca tinham tido a oportunidade de avançar.

Quando finalmente chegou ao topo, observou o muro: alto, sólido, quase impenetrável. Quantas vezes lhe tinham repetido que ali terminava o caminho?

Foi então que levantou os olhos. Para lá do muro, erguia-se um céu azul aberto, e nele voavam aves douradas, livres, sem fronteiras. Um contraste cruel e belo: a liberdade tão perto, mas tantas vezes negada. E nesse momento compreendeu que a barreira não era o limite do mundo, mas apenas o limite imposto.

A saia vermelha agitava-se ao vento, como um fogo que não se apaga. Cada mulher que antes dela subira deixara uma força escondida nos degraus gastos. Não estava sozinha: carregava consigo todas as vozes caladas que haviam desejado em vão olhar mais além.

Sentiu medo, sim. Medo da queda, da solidão, da censura. Mas sentiu também a força e a esperança daquelas que a haviam precedido. Cada direito conquistado estudar, trabalhar, votar, decidir por si fora ganho à custa de suor, fracassos, resistência.

Nenhum tinha sido oferecido, mas arrancado, passo a passo, como quem sobe uma escada difícil.

E dentro de si nasceu uma certeza: o medo não podia ser mais forte do que o desejo de liberdade.

Ali, diante do muro, compreendeu: não era apenas ela a subir. Subia por todas as mulheres espoliadas dos seus direitos, tornadas invisíveis, e esquecidas nos livros de História. Subia para que as próximas não precisassem de começar de tão baixo.

E, pela primeira vez, ousou estender os braços. Não sabia ainda se conseguiria voar, mas sabia que já não voltaria para trás. Porque, no fundo, cada degrau vencido por uma mulher seria caminho aberto para todas as outras.

Ivone Roriz

Rumos – A Condição da Mulher



Sem comentários: