sexta-feira, 31 de julho de 2020

A Linguagem Secreta das Flores   

 

Primeira Parte

Cardos comuns   

 

1

Durante oito anos, sonhei com fogo. As árvores incendiavam-se à minha passagem, os oceanos ardiam. Enquanto dormia, o odor açucarado do fumo colava-se ao meu cabelo e quando me levantava, o aroma das nuvens ficava colado na minha almofada. Mesmo assim, no instante em que o colchão começava a arder, acordava com um tremor. O cheiro químico agudo não era nada como o xarope difuso dos meus sonhos; eram tão diferentes como o Jasmim da Índia e o da Carolina, separação e ligação. Não podiam ser confundidos.

De pé no centro do quarto, localizei a fonte do incêndio. Uma fila ordenada de fósforos de madeira estava alinhada aos pés da cama. Incendiavam-se, um a seguir ao outro, como se fossem uma vedação brilhante através da bainha debruada. Ao observá-los a incendiarem-se, senti um terror em nada proporcional ao tamanho das chamas e por um paralisante instante voltei a ter dez anos, desesperada e esperançosa como nunca me tinha sentido e nunca mais voltaria a sentir desde então.

Mas o colchão simples e sintético não se incendiou como aconteceu com os cardos, em outubro passado. Ficou a arder sem chama e depois o fogo apagou-se.

Era o dia do meu décimo oitavo aniversário.

Na sala de estar, uma fila de raparigas nervosas estava sentada num sofá desengonçado. Os seus olhos percorreram o meu corpo e pousaram nos pés descalços e incólumes. Uma das raparigas tinha uma expressão aliviada; uma outra desiludida. Se tivesse lá ficado mais uma semana, iria recordar-me de todas as expressões. Teria retaliado espetando pregos enferrujados nas solas dos sapatos, ou colocado pequenas pedras nas taças de chili. Em certa ocasião, segurei a ponta incandescente de um cabide junto do ombro de uma colega de quarto que dormia, para depois ser acusada por uma ofensa muito menos severa que fogo posto.

Mas dentro de menos de uma hora ia-me embora. As miúdas sabiam disso, todas elas. Uma das miúdas levantou-se do centro do sofá. Parecia jovem — teria quinze anos, dezasseis no máximo — e tinha uma beleza que não via com frequência: boa postura, pele clara, roupas novas. Não a reconheci imediatamente, mas quando ela atravessou a sala havia qualquer coisa de familiar no modo de andar, com os braços curvados de maneira agressiva. Embora tivesse acabado de chegar, não era uma estranha; apercebi-me que já tinha vivido com ela antes, nos anos que se seguiram a Elizabeth, os mais zangados e violentos da minha vida.

Ela parou a escassos centímetros do meu corpo, com o queixo espetado no espaço que nos separava.

— O fogo — disse com segurança — foi um presente de todas nós. Feliz aniversário.

Atrás dela, a fila de raparigas no sofá contorceu-se. Um capuz foi subido para cobrir uma cabeça, um cobertor enrolou-se mais firmemente. A luz da manhã brilhou numa fileira de olhos baixos e as raparigas pareceram-me subitamente novas, encurraladas. A única maneira de sair de uma casa de acolhimento como esta era fugir, fazer dezoito anos ou ser institucionalizada. As miúdas de nível 14 não eram adotadas; era muito raro irem a casa, se é que alguma vez iam. Aquelas raparigas conheciam as suas perspetivas de futuro. Nos seus olhos não havia nada além de medo: de mim, das suas colegas de casa, da vida que tinham merecido ou recebido. Senti uma inesperada onda de pena. Eu estava de saída; elas não tinham outra escolha senão ficar.

Tentei abrir caminho até à porta, mas a rapariga desviou-se para o lado, bloqueando o meu caminho.

— Sai da frente — disse-lhe.

Uma mulher jovem que estava a fazer o turno da noite enfiou a cabeça pela porta da cozinha. Provavelmente ainda nem tinha vinte anos e sentia mais medo de mim do que qualquer outra das raparigas presentes naquela sala.

— Por favor — disse ela, com uma voz suplicante —, é a última manhã dela aqui. Deixem-na ir.

Esperei, preparada, enquanto a rapariga à minha frente encolhia a barriga e cerrava os punhos. Mas instantes depois abanou a cabeça e virou-se. Eu contornei-a.

Ainda tinha uma hora antes de Meredith me vir buscar. Abri a porta da rua e saí. Era uma manhã nebulosa em São Francisco e o betão do alpendre estava frio debaixo dos meus pés descalços. Parei, a pensar. Tinha planeado encontrar uma resposta para as raparigas, qualquer coisa acutilante e detestável, mas sentia-me estranhamente benevolente. Talvez fosse por ter feito dezoito anos, porque, de repente, tudo aquilo acabara para mim que conseguia sentir alguma ternura em relação ao crime que haviam cometido. Antes de me ir embora, queria dizer qualquer coisa que combatesse o medo que lhes inundava o olhar.

Descendo a Fell, virei para a Market. Os meus passos abrandaram quando cheguei a um cruzamento movimentado e fiquei sem saber para onde ir. Num outro dia qualquer, teria arrancado flores do Duboce Park, pisado o terreno cheio de ervas em Page e Buchanan, ou roubado ervas no mercado do bairro. Durante quase uma década passara todos os momentos que tinha livres a memorizar os significados e descrições científicas de todas as flores em particular, mas esse conhecimento fora muito pouco utilizado. Usava recorrentemente as mesmas flores: um ramo de malmequeres, desgosto; um molho de cardos, misantropia, uma pitada de manjericão seco, ódio. A minha comunicação só variava ocasionalmente: um ramo de cravos vermelhos para a juíza quando me apercebi que nunca mais regressaria à vinha e peónias para Meredith, tantas vez es quantas as que as conseguisse encontrar. Agora, enquanto percorria a Market Street em busca de uma florista, revi o meu dicionário mental.

Três quarteirões adiante, encontrei uma loja de bebidas, onde, por baixo de janelas com grades, havia ramos de flores embrulhados em papel e enfiados em baldes. Parei em frente à loja. Eram maioritariamente arranjos mistos, com mensagens contraditórias. A escolha de ramos de uma só espécie era pequena: rosas normais, vermelhas e cor-de-rosa, um ramo de cravos vermelhos matizados já a murchar e, a explodir do cone de papel, um molho de dálias roxas. Dignidade. Percebi imediatamente que era a mensagem que queria transmitir. Virei as costas para o espelho inclinado que estava por cima da porta, enfiei as flores por baixo do casaco e comecei a correr.

Quando cheguei a casa estava sem fôlego. A sala de estar estava vazia e entrei para tirar o papel às dálias. As flores eram explosões estelares perfeitas, camadas de pétalas púrpuras de pontas brancas que se desdobravam em redor de um centro compacto. Mordi o elástico que as prendia e separei os caules. As miúdas nunca iam entender o significado das dálias (sendo que o próprio significado era uma declaração ambígua de encorajamento); mas, mesmo assim, senti uma ligeireza invulgar enquanto percorria o longo corredor e colocava um caule por baixo de cada uma das portas dos quartos.

Dei as flores que sobraram à rapariga que tinha feito o turno da noite. Encontrei-a junto à janela da cozinha, à espera da sua substituta.

— Obrigada — disse com uma voz confusa quando lhe entreguei o ramo. Fez rodopiar os caules rígidos na palma das mãos.

Meredith chegou às dez da manhã, como me tinha dito. Esperei por ela no alpendre da frente, com uma caixa de cartão equilibrada em cima das coxas. Em dezoito anos de vida, colecionara sobretudo livros: o Dicionário de Flores e O Guia Paterson Field das Flores Silvestres dos Estados do Pacífico, ambos enviados por Elizabeth um mês depois de ter saído da sua casa; livros de botânica, vindos de bibliotecas de todos os cantos de East Bay; edições de bolso resumidas de poesia vitoriana roubadas em recatadas livrarias. Por cima dos livros levava pilhas de roupa dobradas, uma coleção de artigos encontrados e roubados; alguns serviam-me, mas não a maior parte. Meredith ia levar-me para The Gathering House, um lar de transição em Outer Sunset. Estava em lista de espera desde os dez anos.

— Feliz aniversário — disse Meredith, enquanto eu punha a minha caixa no banco de trás do carro.

Não lhe respondi. Ambas sabíamos que podia ser ou não o dia do meu aniversário. O primeiro relatório judicial a que fora submetida dizia que a minha idade era aproximadamente três semanas; a data e local de nascimento eram desconhecidas, assim como os meus pais biológicos. O dia 1 de agosto tinha sido escolhido para efeitos de emancipação, não de celebração.

Afundei-me no banco da frente ao lado de Meredith e fechei a porta, esperando que ela se afastasse do passeio. As suas unhas de acrílico tamborilaram contra o volante. Coloquei o cinto de segurança. Mas o carro continuava sem se mexer. Virei-me de frente para Meredith. Não tinha despido o pijama e puxei os joelhos para junto do peito, depois rodeei as pernas com o casaco. Passei os olhos pelo teto do carro de Meredith enquanto esperava que ela falasse.

— Então, estás pronta? — perguntou. Encolhi os ombros.

— Agora é contigo, sabes? É aqui que começa a tua vida. Daqui para a frente não tens mais ninguém a quem atribuir culpas a não ser a ti.

Meredith Combs, a assistente social responsável por escolher a sucessão de famílias adotivas que me rejeitaram, queria falar-me de culpa.

 

2

Encostei a testa à janela e fiquei a ver passar por mim as colinas cobertas pela poeira estival. O carro de Meredith cheirava a tabaco e havia bolor no cinto de segurança, sem dúvida devido a alguma coisa que um qualquer outro miúdo tinha comido ali. Eu tinha nove anos. Ia sentada no banco de trás com a camisa de dormir vestida e o cabelo curto emaranhado. As coisas não tinham acontecido como Meredith queria. Ela tinha comprado um vestido especialmente para a ocasião, um vestido leve, azul-claro com um bordado e rendas. Mas eu recusara-me a vesti-lo.

Meredith olhava fixamente para a estrada à sua frente. Não me viu a tirar o cinto de segurança, baixar a janela e enfiar a cabeça pelo vidro até a clavícula ficar pressionada contra a parte de cima da porta. Inclinando o queixo para apanhar com o vento, esperei que ela me mandasse sentar. Ela olhou de relance para mim mas não me disse nada. A sua boca permaneceu uma fina linha contraída e não consegui perceber a expressão por baixo dos óculos de sol.

Fiquei assim, debruçando-me um pouco mais a cada quilómetro que passava, até que Meredith carregou no botão que subia os vidros e fechou a janela um ou dois centímetros, sem qualquer aviso. O vidro grosso pressionou o meu pescoço esticado. Voei para dentro do carro, desequilibrei-me em cima do banco e caí no chão. Meredith continuou a fechar a janela, até que o vento que entrava a sibilar pelo carro adentro ficou reduzido ao silêncio. Não olhou para trás. Enroscada na alcatifa suja, apanhei um biberão de leite azedo debaixo do banco do passageiro e atirei-o a Meredith. O biberão bateu-lhe no ombro e fez ricochete na minha direção, entornando uma poça azeda em cima dos meus joelhos. Meredith nem estremeceu.

— Queres pêssegos? — perguntou.

A comida era uma coisa que eu jamais conseguiria recusar e Meredith sabia disso.

— Quero.

— Então vai para o teu lugar, aperta o cinto e eu compro-te o que quiseres na próxima loja de fruta por onde passarmos.

Subi para o banco e coloquei o cinto sobre o peito.

Passaram-se quinze minutos até Meredith sair da autoestrada. Comprou-me dois pêssegos e duzentos gramas de cerejas, que contei enquanto comia.

— Eu não devia dizer-te isto — começou por dizer Meredith. As suas palavras eram lentas e a frase pretendia fazer efeito. Hesitou e olhou-me de relance.

Virei os olhos para a rua e encostei o queixo ao vidro, sem lhe responder.

— Mas acho que mereces saber. Esta é a tua última oportunidade. A última mesmo, Victoria. Estás a ouvir-me? — Não reagi à sua pergunta. — Quando fizeres dez anos, o tribunal vai declarar-te inapta para adoção e nem eu vou continuar a tentar convencer as famílias a ficarem contigo. Se isto não funcionar, vais andar de uma casa de acolhimento para outra, por isso promete-me que vais pensar nisso.

Baixei o vidro e cuspi os caroços das cerejas para o vento. Há apenas uma hora atrás, Meredith tinha ido buscar-me à minha primeira casa de acolhimento. Pareceu-me que a minha colocação naquela casa podia ter sido propositada — como preparação para aquele preciso momento. Não tinha feito nada para ser expulsa da minha última casa adotiva e estive na casa de acolhimento durante uma única semana, antes de Meredith me levar para a casa de Elizabeth.

Era mesmo típico de Meredith, pensei, fazer-me sofrer só para provar que tinha razão.

O pessoal na casa de acolhimento tinha sido cruel. Todas as manhãs, a cozinheira obrigava uma rapariga gorda, de pele escura, a comer com a camisola levantada até ao pescoço, com a barriga saliente à mostra, para que ela se lembrasse que não devia comer demasiado. Depois, a mãe de acolhimento, Miss Gayle, escolhia uma de nós para ficar à cabeceira da comprida mesa e explicar por que motivo a nossa família não nos queria. Miss Gayle só me escolheu uma vez e já que tinha sido abandonada à nascença, consegui escapar-me com a desculpa de que a minha mãe não queria ter um bebé. Outras raparigas contavam histórias sobre as coisas horríveis que tinham feito aos seus irmãos, ou por que motivo eram responsáveis pelos vícios dos pais nas drogas; enquanto contavam as suas histórias, choravam quase sempre.

Mas se Meredith me tinha colocado na casa de acolhimento para me assustar e me fazer comportar melhor, não tinha resultado. Apesar do pessoal, gostava de lá estar. As refeições eram servidas a horas certas, dormia com dois cobertores e ninguém ali fingia que me amava.

Comi a última cereja e cuspi o caroço para a parte de trás da cabeça de Meredith.

—  Pensa bem nisso —  repetiu.

Como se quisesse subornar-me para que pensasse, encostou e comprou-me um pacote fumegante de peixe e batatas fritas e um batido de chocolate. Comi depressa, desastradamente, enquanto observava as colinas poeirentas de East Bay a darem lugar ao caos apinhado de São Francisco, para depois se abrir para uma grande baía. Quando atravessámos a Golden Gate, a minha camisa de dormir já estava coberta de pêssegos, cerejas, ketchup e gelado.

Passámos por campos secos, uma quinta de flores, um parque de estacionamento vazio, até que chegámos finalmente a uma vinha, com as filas ordenadas de videiras dispostas através das colinas ondulantes. Meredith travou a fundo e virou à esquerda, para uma longa estrada de terra batida, aumentando a velocidade no piso irregular, como se não conseguisse esperar mais um segundo até me despejar do carro. Passámos a voar por mesas de piquenique e filas de vinhas meticulosamente cuidadas que cresciam junto a arames baixos. Meredith abrandou ligeiramente para fazer uma curva antes de voltar a acelerar e avançar em direção a uma aglomeração de árvores no centro da propriedade, deixando uma nuvem de fumo em redor da viatura.

Quando parou e o pó assentou, vi uma casa de campo. Tinha dois andares, com um telhado pontiagudo, um alpendre envidraçado e cortinas de renda a cobrir as janelas. À direita da casa havia uma caravana de metal baixa, vários barracões inclinados, brinquedos, ferramentas e bicicletas espalhadas pelo meio. Como já tinha vivido antes numa caravana, questionei-me imediatamente se Elizabeth teria um sofá-cama ou se teria de partilhar o quarto com ela. Não gostava de ouvir as pessoas a respirar.

Meredith não esperou para ver se eu saía do carro voluntariamente. Desapertou-me o cinto de segurança, agarrou-me por baixo dos braços e puxou-me até à frente da enorme casa, enquanto eu esperneava. Estava à espera que Elizabeth saísse da caravana, por isso estava de costas para o alpendre da frente e não a vi antes de sentir os seus dedos ossudos no meu ombro. Fugi para diante com um grito, correndo descalça para a extremidade mais afastada do carro, para depois me agachar atrás dele.

— Ela não gosta de ser tocada — ouvi Meredith dizer a Elizabbeth com evidente aborrecimento. — Já lhe tinha dito isso. Tem de esperar que ela se chegue a si primeiro.

Fiquei furiosa por ela saber disto. Esfreguei a pele no local em que Elizabeth me tinha agarrado, para apagar as suas impressões digitais, e fiquei escondida atrás do carro.

— Eu espero — disse Elizabeth. — Disse-lhe que esperava e não pretendo voltar atrás com a minha palavra.

Meredith começou a recitar a sua lista habitual de razões que a impediam de ficar para nos ajudar a conhecer-nos melhor: um avô doente, um marido ansioso e o seu receio de conduzir à noite. Elizabeth bateu impacientemente com o pé no pneu de trás enquanto a ouvia falar. Meredith ir-se-ia embora daí a uns instantes, deixando-me exposta no meio da gravilha. Rastejei para trás, junto ao solo. Escondi-me atrás de um tronco de uma nogueira, depois levantei-me e desatei a correr.

Quando saí do aglomerado de árvores, virei para a primeira fila de vinhas que apareceu à minha frente, escondendo-me no meio de uma espessa planta. Puxei as videiras soltas e enrolei-as em torno do meu corpo magro. Do meu esconderijo, conseguia vislumbrar Elizabeth a vir na minha direção e ao consertar as videiras vi-a a caminhar por um dos corredores. Quando ela passou pela minha fila, afastei com alívio a mão que me tapava a boca. Ao levantar-me, apanhei uma uva do cacho mais próximo e trinquei a sua pele rija. Era amarga. Cuspi a uva e esmaguei o resto do cacho com o pé, sentindo o sumo a esguichar por entre os dedos.

Não vi nem ouvi Elizabeth a vir na minha direção. Mas quando estava a começar a esmagar um segundo cacho de uvas, ela meteu a mão por entre as videiras, agarrou-me pelos braços e puxou-me para fora do meu esconderijo. Segurou-me à sua frente. Os meus pés ficaram a pairar a escassos centímetros do solo enquanto ela me observava.

— Eu cresci aqui — disse-me. — Conheço todos os bons esconderijos.

Tentei libertar-me, mas Elizabeth segurava os meus dois braços com firmeza. Pousou-me os pés no chão, mas não me largou. Pontapeei pó para as pernas dela e quando nem assim ela me largou os braços, dei-lhe pontapés nas canelas. Ela não recuou.

Soltei um grunhido e tentei abocanhar o dedo estendido dela, mas ela percebeu o que eu ia fazer e agarrou-me o rosto. Espremeu-me as bochechas até o meu maxilar ficar sem força e os lábios se espetarem. Inspirei profundamente com a dor.

— Nada de morder — disse-me. Depois inclinou-se para a frente como se quisesse dar-me um beijo nos lábios rosados e espetados, mas parou a centímetros do meu rosto, com os olhos negros a perfurar os meus. — Eu gosto de ser tocada — acrescentou. — Vais ter que te habituar a isso.

Deu-me um sorriso divertido e largou-me o rosto.

— Não vou nada — prometi. — Nunca me vou habituar.

Mas parei de lutar e deixei que ela me puxasse até ao alpendre da frente e para o interior da casa fresca e escura.

 

3 

Meredith virou para Sunset Boulevard e conduziu devagar por Noriega, atenta a cada sinal de trânsito. Um carro impaciente buzinou atrás de nós.

Desde Fell Street que vinha a falar sem parar e a lista de razões pelas quais a minha sobrevivência parecia pouco provável estendia-se por metade da cidade de São Francisco: não tinha acabado o ensino complementar, não tinha motivação, nenhuma rede de apoio e era completamente desprovida de capacidades sociais. Estava a perguntar-me qual era o meu plano, exigindo que pensasse em ser autossuficiente.

Eu ignorei-a.

As coisas nem sempre tinham sido assim entre nós. Quando era uma criança ainda muito pequena, absorvi inteiramente o seu discurso otimista, sentada na beira de uma cama enquanto ela me penteava e fazia tranças no cabelo castanho fino, prendendo-as com uma fita antes de me apresentar a um novo pai e uma nova mãe como se fosse um presente. Mas à medida que os anos foram passando e família atrás de família me foi devolvendo, as esperanças de Meredith esmoreceram. O outrora gentil escovar de cabelo foi substituído por movimentos bruscos, parando e recomeçando ao ritmo dos seus sermões. A descrição do modo como devia comportar-me aumentava com cada nova colocação e tornou-me cada vez mais diferente da criança que eu sabia que era. Meredith mantinha uma lista das minhas deficiências no seu bloco de notas e lia-as para o juiz como se fossem acusações criminais. Desligada. Impulsiva. Desbocada. Impenitente. Recordo-me de cada palavra que disse.

Mas não obstante as suas frustrações, Meredith manteve o meu caso a seu cargo. Recusou-se a transferir-me para fora da unidade de adoções mesmo quando um juiz já cansado sugeriu que talvez tivesse feito tudo o que podia por mim. Meredith negou sem hesitação que fosse esse o caso. Por um breve e espantoso momento julguei que a sua reação se devesse a um afeto oculto que nutria por mim, mas quando olhei para ela vi o seu rosto rosado com o embaraço. Ela era a minha assistente social desde o dia em que eu nascera; se me declarassem um falhanço, eu seria, por arrasto, o seu falhanço.

Parámos em frente à The Gathering House, uma casa de estuque, cor de pêssego, de telhado plano, numa rua de casas de estuque, cor de pêssego e telhados planos.

— Três meses — disse Meredith. — Quero ouvir-te dizê-lo. Quero ter a certeza de que entendes. Três meses de renda gratuita; depois disso começas a pagar ou sais de casa.

Não lhe respondi. Meredith saiu e bateu com a porta do carro atrás de si.

A minha caixa, que ia no banco de trás, mexera-se durante a viagem e as roupas estavam espalhadas pelo banco. Coloquei-as novamente em cima dos livros e segui Meredith pelos degraus da frente. Ela tocou à campainha.

Passou-se mais de um minuto até a porta se abrir e quando se abriu, um magote de raparigas estava no átrio. Segurei a caixa com mais força contra o peito.

Uma rapariga baixa, de pernas grossas, com cabelo louro comprido, empurrou a porta de rede de metal e estendeu a mão.

— Eu sou a Eve — disse.

Meredith pisou-me o pé, mas mesmo assim não aceitei a mão estendida de Eve.

— Esta é a Victoria Jones — disse Meredith, empurrando-me para a frente. — Ela faz hoje dezoito anos.

Seguiu-se um murmúrio de desejos de feliz aniversário e duas raparigas trocaram olhares de sobrolho erguido.

— A Alexis foi expulsa de casa na semana passada — disse Eve. — Ficas com o quarto dela.

Virou-se para me levar lá e segui-a pelo átrio escuro e alcatifado até uma porta aberta. Assim que entrei, fechei a porta à chave.

O quarto era branco brilhante. Cheirava a tinta fresca e quando toquei nas paredes ainda estavam pegajosas. O pintor tinha sido descuidado. A alcatifa, outrora branca como a parede, estava agora manchada de tanto uso e tinha salpicos de tinta junto ao rodapé. Desejei que o pintor tivesse continuado a pintar a alcatifa, o colchão e a mesa de cabeceira de madeira escura. O branco era novo e limpo e agradava-me que não tivesse pertencido a ninguém antes de mim.

Meredith chamou-me do átrio. Bateu à porta e voltou a bater. Pousei a minha caixa pesada no meio do quarto. Tirei as roupas e coloquei-as em cima umas das outras no chão do guarda-fatos; depois empilhei os livros na mesa de cabeceira. Quando a caixa ficou vazia, rasguei-a às tiras para cobrir o colchão despido e deitei-me em cima. A luz entrava por uma pequena janela e as paredes brancas refletiam-na, aquecendo a pele exposta do meu rosto, pescoço e mãos. Reparei que a janela estava virada a sul, o que era bom para as orquídeas e os bolbos.

— Victoria? — chamou mais uma vez Meredith. — Preciso de saber qual é o teu plano. Diz-me só qual é o teu plano e deixo-te em paz.

Fechei os olhos, ignorando o som dos nós dos dedos dela contra a madeira. Até que parou finalmente de bater. Quando abri os olhos, estava um envelope na alcatifa, perto da porta. Lá dentro tinha uma nota de vinte dólares e um bilhete que dizia: Compra comida e arranja um emprego.

A nota de vinte dólares de Meredith deu para vinte litros de leite gordo. Durante uma semana, comprava todas as manhãs um pacote de leite na loja da esquina e bebia o líquido cremoso ao longo do dia, enquanto cirandava pelos parques da cidade e pelos pátios das escolas, identificando as plantas locais. Como nunca tinha vivido tão perto do mar, estava à espera de encontrar uma paisagem desconhecida. Estava à espera que o nevoeiro denso da manhã, a pairar a poucos centímetros do solo, cultivasse uma panóplia de vegetação que nunca tinha visto. Mas, excetuando grandes aglomerações de aloés perto das margens, com as suas flores vermelhas e altas a erguerem-se no céu, o que encontrei foi uma surpreendente falta de novidade. As mesmas plantas estrangeiras que vira nos jardins e viveiros por toda a Baía — lantanas, buganvílias, tomate-da-índia e capuchinhos — dominavam a área. Só a escala era diferente. Envoltas na humidade opaca da costa, as plantas cresciam mais, eram mais brilhantes e selvagens, eclipsando vedações baixas e abrigos de jardim.

Quando acabava de beber um pacote de leite voltava para casa, cortava o pacote ao meio com uma faca de cozinha e esperava que a noite chegasse. O solo dos canteiros de flores do vizinho do lado era escuro e fértil e eu transferia-o para os meus vasos improvisados com uma colher de sopa. Depois de fazer buracos no fundo dos pacotes, pousava-os no centro do meu quarto, onde apanhariam sol direto durante poucas horas ao fim da manhã.

Ia procurar um emprego; sabia que precisava de o fazer. Mas pela primeira vez na vida, tinha o meu próprio quarto com uma porta com fechadura e ninguém para me dizer onde devia estar ou o que devia fazer. Por isso decidi que antes de começar a procurar emprego, ia fazer um jardim.

Quando a primeira semana chegou ao fim, tinha catorze vasos de flores e percorrido um raio de dezasseis quarteirões em busca de variedade. Concentrando-me em plantas que florescessem no outono, desenterrei pés inteiros em jardins de residências, jardins comunitários e parques infantis. Normalmente ia a pé para casa, com as mãos cheias de bolas de raízes enlameadas, mas em mais do que uma ocasião acabei mesmo por me perder, ou por ir parar a sítios demasiado afastados da The Gathering House. Nesses dias, entrava sorrateiramente num autocarro pela porta de trás, avançava até um lugar e deixava-me ficar nele até chegar a um bairro que me fosse familiar. No meu quarto, colocava as raízes magoadas com cuidado, espalhava terra cheia de nutrientes por cima delas e regava-as abundantemente. Os pacotes de leite escorriam água para cima da alcatifa e à medida que os dias iam passando, as ervas daninhas começaram a nascer nas fibras gastas. Eu mantinha-me sempre alerta, atenta, arrancando as espécies invasoras quase antes de conseguirem abrir caminho para fora da escuridão.

Meredith ia todas as semanas ver como eu estava. O juiz determinou que ela seria a minha ligação permanente, porque a legislação sobre a emancipação exigia a existência de uma pessoa que servisse de ligação e também porque não conseguiram encontrar mais ninguém no meu processo que fosse elegível para o cargo. Eu fazia o que podia para a evitar. Quando regressava dos meus passeios, observava The Gathering House a partir do passeio e só subia os degraus da frente quando o seu carro branco não se encontrava estacionado no caminho de acesso a casa. Mas ela acabou por descobrir a minha tática e no início de setembro, abri a porta e dei com ela sentada à mesa da sala de jantar.

— Onde está o teu carro? — exigi saber.

— Está estacionado do outro lado do quarteirão — respondeu-me. — Há mais de um mês que não te via, por isso presumi que andasses a evitar-me. Há alguma razão para isso?

— Não, nenhuma.

Encaminhei-me até à mesa e empurrei para longe de mim os pratos sujos que alguém deixara. Enquanto me sentava, coloquei mancheias de alfazema — que tinha arrancado de um jardim em Pacific Heights — na madeira arranhada que se estendia entre nós.

— Alfazema — disse, entregando-lhe um pé. Desconfiança.

Meredith girou o pé de alfazema entre o polegar e o indicador e pousou-o, desinteressada.

— E o emprego? — perguntou.

— Que emprego?

— Já tens algum?

— Por que motivo havia de ter um emprego?

Meredith suspirou. Pegou na alfazema que lhe tinha dado e atirou-a na minha direção, com o caule virado para mim. A alfazema mergulhou como se fosse um avião de papel mal construído. Tirei-a de cima da mesa e alisei cuidadosamente as pétalas amarrotadas com o polegar.

— Havias de ter um emprego, porque certamente foste à procura de um, candidataste-te e foste contratada — disse Meredith. — Se não o fizeste, dentro de seis semanas estás no olho da rua e não vais ter ninguém que te abra a porta numa noite fria.

Olhei para a porta da frente, questionando-me quanto tempo faltaria até ela se ir embora.

— Tens de o querer — disse Meredith. — Eu não posso fazer muito mais. A verdade é que és tu quem tem de o querer.

Querer o quê? Colocava-me sempre a mesma pergunta quando ela dizia isto. O que eu queria era que ela se fosse embora. Queria beber o pacote de leite que estava na prateleira de cima do frigorífico, com o rótulo a dizer LORRAINE, e acrescentar aquele pacote à coleção de vasos no meu quarto. Queria plantar a alfazema perto da minha almofada para adormecer enquanto inalava o seu aroma fresco e seco.

Mcredith levantou-se.

— Volto na próxima semana, quando menos estiveres à minha espera e quero ver um grande monte de candidaturas a empregos na tua mochila.

Parou ao chegar à porta.

— Vai ser difícil para mim colocar-te na rua, mas devias saber que sou capaz de o fazer.

Não acreditava que fosse difícil.

Entrei na cozinha e abri o frigorífico, remexendo em crepes e salsichas panadas até ouvir a porta da frente a bater.

Passei as semanas finais na The Gathering House a transplantar o jardim do meu quarto para McKinley Square, um pequeno parque da cidade, no cimo de Potrero Hill. Tinha-o encontrado enquanto percorria as ruas em busca de anúncios de emprego e deixei-me distrair pela combinação perfeita de sol e sombras, solidão e segurança que o parque transmitia. Potrero Hill era um dos bairros mais calorosos da cidade e o parque ficava situado numa colina, oferecendo uma vista ampla em todas as direções. No centro do relvado bem tratado, havia uma pequena caixa de areia para as crianças brincarem, mas por trás do relvado, o parque transformava-se numa floresta íngreme, descendo pela colina numa profusão de arbustos emaranhados, com vista para o Hospital de São Francisco e para uma cervejaria. Em vez de continuar à procura de um emprego, transpo rtei os meus vasos de cartão para aquele lugar isolado. Escolhi cuidadosamente a localização de cada uma das plantas — as que gostam de sombras ficaram debaixo das árvores, as que desejam o sol ficaram a uma dezena de metros para baixo, fora da sombra.

Na manhã da minha expulsão, acordei antes de amanhecer. O quarto estava vazio, o chão ainda estava húmido, com manchas de terra nos locais onde os vasos antes repousavam. A minha iminente condição de desalojada não tinha sido uma decisão consciente; porém, enquanto me vestia na manhã em que sabia que ia ser posta na rua, fiquei surpreendida por descobrir que não tinha medo. Quando estava à espera de sentir medo, ou raiva, fiquei inundada de uma ansiedade nervosa, um sentimento semelhante ao que experimentei quando era mais nova, na véspera de cada uma das colocações em famílias adotivas por que passei. Agora, enquanto adulta, as minhas expectativas em relação ao futuro eram simples: queria estar sozinha e rodeada de flores. Ao que parecia, ia conseguir obter finalmente tudo o que desejava.

O quarto estava vazio com exceção de três mudas de roupa, a minha mochila, a escova de dentes, gel para o cabelo e os livros que Elizabeth me oferecera. Na noite anterior, deitada na cama, ouvi as minhas colegas de casa a escolher por entre o resto dos meus pertences como se fossem animais esfomeados a devorar as suas presas. Era o procedimento habitual nas casas de acolhimento ou de grupo, aquela inspeção das coisas deixadas para trás por crianças apressadas e chorosas. As minhas colegas de casa, já emancipadas, continuavam com a tradição.

Há muitos anos — quase dez — que não participava numa inspeção, mas ainda me lembrava da emoção de encontrar qualquer coisa aceitável, alguma coisa que pudesse vender na escola por meia dúzia de cêntimos, ou uma coisa misteriosa ou pessoal. Comecei a colecionar estes pequenos artigos esquecidos quando andava na escola primária e tratava-os como se fossem tesouros — um amuleto prateado com um M gravado, uma bracelete de pele e cobra turquesa pálido, uma caixa do tamanho de uma moeda com um molar ensanguentado no seu interior. Costumava guardá-los num saco de rede que roubei da lavandaria de alguém. Os objetos comprimiam-se contra os minúsculos buracos do saco à medida que ia ficando cada vez mais cheio e pesado.

Durante um curto espaço de tempo disse para mim própria que estava a guardar aqueles objetos para os seus donos de direito — não para os devolver, mas para os usar como subornos por comida ou favores caso viéssemos a encontrar-nos mais uma vez na mesma casa. Mas enquanto a coleção crescia, comecei a cobiçá-1a verdadeiramente, contando a mim mesma, vezes sem conta, as histórias de cada um dos objetos: a altura em que vivi com Molly, a rapariga que adorava gatos; a colega de beliche, cujo relógio tinha sido arrancado do seu pulso, partindo-lhe o braço; a casa na cave onde Sarah soube a verdade sobre a Fada dos Dentes. O meu apego aos objetos não era baseado na ligação que tinha com os seus proprietários. Na maior parte das vezes eu evitava-os, ignorava os seus nomes, as suas histórias, as esperanças que tinham para o futuro. Mas ao longo do tempo os objetos começaram a parecer uma linha de pistas para o meu passado, um rasto de migalhas e eu sentia um vago desejo de as seguir para voltar ao lugar em que estava antes de as recordações se formarem. Depois, numa mudança de casa apressada e caótica, fui obrigada a deixar o saco para trás. Nos anos que se seguiram, recusei-me a guardar os meus pertences, chegando obstinadamente a cada casa nova de mãos a abanar.

Comecei a vestir-me rapidamente: dois tops de alças seguidos de três t-shirts e uma camisola de capuz, calças justas castanhas, meias e sapatos. O meu cobertor de lã castanho não cabia na mochila, por isso dobrei-o ao meio, enrolei-o à cintura e prendi as dobras com alfinetes de ama a toda a volta. Peguei na parte de baixo e prendi-a para cima como se fosse uma combinação formal. Depois, cobri tudo com duas saias de comprimentos diferentes; a primeira comprida de renda cor de laranja e a segunda, uma saia em A cor de vinho. Observei-me ao espelho da casa de banho enquanto lavava os dentes e o rosto, satisfeita, ao perceber que não tinha um aspeto atraente nem repulsivo. As minhas curvas estavam bem escondidas por baixo de toda a roupa e o corte extremamente curto que na noite anterior tinha dado ao cabelo, fazia sobressair os olhos azuis brilhantes — o único traço fisionómico excecional num rosto em tudo o resto banal — tornando-os perturbadoramente grandes, quase assustadores no seu domínio do meu rosto. Sorri para o espelho. Não parecia uma desalojada. Pelo menos não por enquanto.

Parei na soleira do quarto vazio. A luz do sol refletia-se nas paredes brancas. Questionei-me sobre quem moraria ali a seguir a mim e o que pensariam das ervas daninhas que nasciam na alcatifa junto aos pés da cama. Se me tivesse lembrado disso antes, teria deixado para a rapariga seguinte um pacote de leite cheio de funcho. A planta com aspeto de penugem e com o seu aroma adocicado teria sido uma fonte de conforto. Mas agora era demasiado tarde. Acenei, despedindo-me do quarto que deixaria de ser meu e senti uma inesperada gratidão pelo ângulo em que o sol entrava, pela porta com fechadura, pela breve dádiva de tempo e espaço.

Apressei-me a entrar na sala de estar. Pela janela vi o carro de Meredith já no caminho de acesso, com o motor desligado. Ela estava sentada a observar o seu reflexo no espelho retrovisor, com as mãos no volante. Dei meia volta e saí pela porta das traseiras e entrei no primeiro autocarro que passou.

Nunca mais vi Meredith.

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