quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Agosto de 1945

No dia em que Hiroshima e Nagasaki arderam

havia alegria

na outra metade do mundo:

os aliados tinham lutado e vencido.

Era o fim da guerra e de todas as guerras.

 

E eu imaginava a Bomba,

qual fogo de artifício em noite de Passagem de Ano...

 E enquanto ruas de asfalto derretido colapsavam,

arrastando consigo milhares de pessoas,

eu via os meus vizinhos a jogar

às escondidas,

e esperava que viessem chamar-me para a mesa.

Os girassóis resplandeciam ao sol

e os caracóis, tranquilos, deixavam

no jardim trilhos prateados,

enquanto na terra do Sol Nascente

surgiam milhares de plantas monstruosas

 

e nasciam doenças sem nome.

Deste lado, as meninas penteavam

longas tranças de cabelo,

enquanto lá longe, milhares de mulheres

viam as tranças desaparecer

e acordavam ou morriam sem cabelo...

Os dias sucediam-se,

e eu olhava avidamente para um mundo

que desaparecia para sempre do olhar de tantas crianças inocentes...

A palavra "radioatividade" ainda não era conhecida.

E, aos dez anos, eu pensava que tudo estava

bem: era o fim da guerra e os bons triunfavam.

 

Todos estavam felizes:

o Desfile da Vitória ia começar.

 

Mas, do outro lado do nosso outono,

Hiroshima e Nagasaki estavam a arder.

Jorge Teillier


Sem comentários: