No dia em que Hiroshima e Nagasaki arderam
havia alegria
na outra metade do mundo:
os aliados tinham lutado e vencido.
Era o fim da guerra e de todas as guerras.
E eu imaginava a Bomba,
qual fogo de artifício em noite de Passagem de Ano...
E enquanto ruas de
asfalto derretido colapsavam,
arrastando consigo milhares de pessoas,
eu via os meus vizinhos a jogar
às escondidas,
e esperava que viessem chamar-me para a mesa.
Os girassóis resplandeciam ao sol
e os caracóis, tranquilos, deixavam
no jardim trilhos prateados,
enquanto na terra do Sol Nascente
surgiam milhares de plantas monstruosas
e nasciam doenças sem nome.
Deste lado, as meninas penteavam
longas tranças de cabelo,
enquanto lá longe, milhares de mulheres
viam as tranças desaparecer
e acordavam ou morriam sem cabelo...
Os dias sucediam-se,
e eu olhava avidamente para um mundo
que desaparecia para sempre do olhar de tantas crianças
inocentes...
A palavra "radioatividade" ainda não era conhecida.
E, aos dez anos, eu pensava que tudo estava
bem: era o fim da guerra e os bons triunfavam.
Todos estavam felizes:
o Desfile da Vitória ia começar.
Mas, do outro lado do nosso outono,
Hiroshima e Nagasaki estavam a arder.
Jorge Teillier
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